Amigo

Uma luz que bate na janela. O escuro apenas perpassado por aquele clarão. Uma pessoa deitada, supostamente a dormir. Abre os olhos e fica a escutar. Algo se passa lá fora… um tumulto, que não a deixa dormir. Levanta-se devagar tentando entender o que se passa. Qual é este alvoroço que não a deixa descansar. Percorre a casa, no escuro, tacteando nas paredes, tentando manter-se silenciosa. Mas sempre alerta. Algo se passa. E ela não sabe o quê. Em todos os cantos da casa há um vazio, um silêncio que a sufoca. No entanto ela sabe que algo se passa. Algo que não a deixa dormir. Não, não é aquela pequena luz. Não, não é barulho lá fora, porque agora ela está à janela e tudo está calmo. Mas há algo. Algo que ela não sabe explicar ou definir. Apenas o sabe. Percorre de novo a casa, de volta à sua cama e aquela pequena luz que lhe faz companhia. Algo se passa. E ela não entende o quê, mas ainda assim, volta para a cama. Fecha os olhos de novo, na (ainda que) vã esperança que ao sono se consiga entregar. Alguns minutos passam, não sabendo ao certo quantos, apenas lhe parecendo horas. O sono não vem e o tumulto mantém-se. Sente-se dormente e estranha. Algo se passa.

Ela tenta não pensar. Porque pensar sempre lhe trouxe dissabores. Grita muda pelo sono que não tem e queria. Porque sonhar é melhor do que aquilo. Mas não consegue. Finalmente, após o que lhe pareceu uma noite inteira (mesmo ainda estando noite, com aquela pequena luz ali…), entrega-se ao pensar. Aquela actividade penosa que tanto teme mas à qual se torna impossível fugir. E aí volta a dormência aparente. Algo se passa. E ela não sabe o quê. Se calhar sabe, mas não quer pensar nisso. Enquanto se debate entre o pensar e o olhar o tecto acima de si, sente algo. Uma dor talvez, o tumulto a apoderar-se dela. E agora ela entende.

Uma lágrima. E muitas lhe seguem. Aquele revolta que agora a afunda em algo. E ela chora. Entende agora o que se passa. O tumulto não está lá fora. Está lá bem dentro. Tão dentro que ela não entendeu que não estava bem, tão dentro que ela julgou que era lá fora. Por tudo o que ela pensara já não sentir, que julgara já não a afectar. Ainda bate fundo e dói. E ela chora. Sem saber o que fazer amanhã, sabendo apenas que naquele momento, não quer controlar as lágrimas que lhe correm frenéticas pela face. Olha à sua volta. E lá está aquela luz, aquela pequena luz. E as lágrimas aos poucos tornam-se menos. E o tumulto acalma. Aquela pequena luz. Pensa. E chega à conclusão que, por mais lágrimas escondidas que existam, por mais dormência que exista nos seus sentimentos, actos, na sua vida, há sempre uma (ainda que) pequena luz.
Aquela pequena luz, sempre ali, que lhe faz companhia nas noites escuras.
E fecha os olhos, caindo finalmente num sono profundo. O tumulto parou. Pelo menos por agora, ela pode não pensar. Sonhar apenas, que é mais agradável. Enquanto aquele pequeno clarão ali se mantém.


Na manhã seguinte acorda. Já tarde, pela noite mal dormida. Olha a rua e o clarão daquela pequena luz desapareceu, dando agora lugar à luz brilhante do sol.

… E ela sorri.

Comentários

Anónimo disse…
Sorri e segue em frente. ;)

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