Escuta

Era uma vez um dia. Ou talvez mais… Um mês? Um ano? Não o sei dizer. Há dias que parecem meses e momentos que parecem segundos. Era uma vez uma história de amor. Um pensamento. Uma lágrima. Uma dor. Um sentimento. Momentos, todos eles. Não o sei dizer.

Tudo é uma amálgama de sentir que se perde na nossa definição física de tempo. Aquela que nos ensinam na escola, mas que só sentimos na impaciência da rotina. Era talvez um momento da noite. Importante. Eu e os meus pensamentos em frente ao computador. Num momento em que algo se quer. Clareza talvez… não lhe chamo paz de espírito, porque disso sou céptica. Momentos em que queremos algo. Não alguém (vou frisar). A-L-G-O. Abstracto sim, mas altamente definitório. Não sei. Tudo é hoje em dia algo que nos escapa. Não há vida palpável e realmente sentida. Não há momentos de significância para nós. Há o que nos dão. Tempo… aquele da escola. Ou que é curto, ou que nunca mais acaba. E o nosso tempo? Os nossos momentos? Onde estão? Onde param aqueles intervalos de algo que alguns chamam tempo mas que não nos roubam vida?

Era uma vez uma noite. Ou talvez mais… Não o sei dizer. Momentos. Tempo? Palavra feia que nos tira tanta coisa. Talvez momentos de clareza? De algo ao qual não sei dar nome.

O relógio… a mosca que voa subtilmente à nossa volta. A nossa respiração. O tudo à nossa volta que significa tanto. Mas um tanto que o tempo nos tira. Talvez dormir. Talvez fosse essa a solução. Não havendo sono, o que podemos fazer? Não podemos perder tempo a fazer algo. Temos de dormir. Senão amanhã não haverá tempo para fazer algo “importante”. Tempo, tempo…

Tic tac… tic tac… isto que a nossa rotina controla. Isto que nos controla. Talvez mais que um dia, uma hora, segundos. Meses ou anos, pouco importa. Não somos o nosso todo potencial se não tivermos momentos. O que se passa a nossa volta? O que é o mundo? O que é o tempo? E o que somos nós, pequenos átomos rodeados de tudo isto que nos supera. Talvez. Talvez consigamos um dia, fazer de momentos os nossos dias. De ouvir, sentir, mas não com os sentidos a que tão habituados estamos. Tudo se vê de outra perspectiva se mantivermos os olhos fechados mesmo sem os ter. Porque eles abrem outras portas de nós. Momentos essenciais.

Era uma vez uma jovem. E uma noite. Ou talvez um dia? Uma hora? Ou terão sido dias? Não o sabe dizer. Só sabe uma coisa. Olhos fechados, escutando… Escutando-se. Ouvindo-se. Sentindo-se.

Tic tac… tic tac… o relógio e o tempo, sempre presentes. Já a mosca desapareceu, não a ouve. Os escassos carros que passam. Ou motas talvez...Não o sabe dizer. E o coração? Ainda aqui está. Continua a bater...


O nosso coração, mostrando que ainda está vivo.
E se ele o está, porque não estamos nós?

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