Turning Page

Naquela noite senti algo a mudar. Não sabia dizer ao certo o que era, ou se seria bom ou mau. Algo estava palpavelmente a mudar na minha vida, e eu não me importava. Sabia que tudo partia de mim e que o que eu desejasse realmente, eu teria. E foi com esta ideia na mente que me fui deitar.

Na manhã seguinte, acordei cedo. Estranhamente elétrica sem o estar, demasiado desperta mesmo não tendo passado mais que uns segundos desde que acordara. Algo vibrava no ar e eu esperava que se projetasse à minha frente. Horas depois, uma mensagem. “Podemos combinar, hoje às 2 horas em minha casa. Passamos cá a tarde se quiseres.”

2horas e 5 minutos. Cheguei. O ar palpitava em volta de mim e eu não entendia porquê. Toquei. À porta veio a pessoa mais espantosa que já vi. Parecia aos meus olhos romanceados, um daqueles momentos de filme. Pena não poder pará-lo. Entrei. Ele educado perguntou-me o que queria fazer, e eu mesmo sabendo que nada disso precisava com ele, senti uma timidez que não era de todo natural em mim. Queria dizer algo que carimbasse o meu sucesso desde logo, mas não me passava pela cabeça nada inteligente para dizer. Sentámo-nos a ver tv, a princípio um pouco afastados, mas aos poucos, como ímanes, aproximando-nos como se de uma força sobrenatural da natureza se tratasse. Não sei quanto tempo se passou, muito ou pouco (não estava a contar, mas rezava pra que fosse pouco, para que tudo não acabasse rápido demais), mas estávamos juntos. O calor da sua pele deixava-me sem palavras mais uma vez. O toque que veio. O olhar mais profundo, como se a minha alma se sentisse totalmente nua perante aquela pessoa. O beijo. Uma amálgama de sentir que me enchia a alma nua, um conjunto de sentir que me toldava os sentidos. Um por um.
Pele com pele. Calor com calor. Olhares, abraços, toques, tudo foi permitido.

Acabou sem acabar. Ficámos naquele momento em que as palavras não chegam para explicar o que se passou. Em que os cigarros são acesos para os fumadores. Aquele pós-algo-que-não-se-consegue-definir. Nem tão-pouco se quer. E aquele olhar, típico dele, continuava em mim. Mesmo depois de tudo sentia aquela timidez a apoderar-se de mim. Não fazia sentido. As barreiras tinham sido ultrapassadas, como se podia ter vergonha depois do que se passara. Mas aqueles olhos. O sorriso. Aquele que parecia uma estátua a um deus qualquer pagão, de formas quase perfeitas e de rosto luminoso. Com um sorriso que me fazia parar no tempo e o olhar que me aquecia por dentro. A sensação das borboletas na barriga que à muito não sentia.
Apercebi-me do porquê de tudo o que sentira até ali. Algo no fundo de mim me dizia que era isto. Estava apaixonada. Nada de amores do género “Romeu e Julieta”, altamente dramáticos e eternos, tradicionais e formalizados. Gostava da pessoa que estava à minha frente. Com todas as suas limitações de personalidade, e acima de tudo por todas as suas características únicas. Não conhecia ninguém assim à bastante tempo. E num segundo, tudo isto me passou pela cabeça, e um segundo depois tinha a certeza. Queria mais daquela pessoa. Talvez por isso ganhei coragem, após algum tempo simplesmente a olhá-lo, a admirar todos os pormenores do momento, e lendo-o, como se a sua alma fosse para mim um livro aberto.

Quero pedir-te algo.”, “Diz”, “Agarra-me”, “Mas estás aqui mesmo ao meu lado”, “Sim, eu sei. Mas quero que me agarres e não me deixes ir embora.”, “Anda cá então”, “Não, não estás a entender. Quero que sejas meu sem necessariamente o seres. Quero ser a pessoa com que te sentes melhor, com quem queres partilhar as alegrias que aparecem na tua vida, e com quem partilhas também o que de menos bom passa por ti. Quero ser como a menina com quem fazes amizade e com quem passas a tarde aos pulos no jardim. Que se torna mais tarde numa amiga e companheira de brincadeiras mesmo sem idade para tal. Quero estar aqui sem estar, estando na tua vida como uma marca que não queres deixar passar. Não quero que me chames de namorada, amor ou bebé, mas que me tenhas no teu coração e que estejas comigo. Sim, aquele estar de quem gosta de uma pessoa, sem reais amarras. Quero-te.”

Ele calou-se. Não sabia se tinha falado demais ou se lhe tinha tocado algum ponto.
Depois de alguns momentos, em que me auto-inflingi por ser tao parva, por falar demais, olhei-o nos olhos. Ele sorriu e perguntou-me com aquele tom de voz inesquecível “Queres mesmo tudo isso?”, “Sim, quero. Isto e muito mais.”
 Ele olhou demoradamente para mim, sorriu de novo, com aquele sorriso que não julgava alguma vez ver, sem ser numa cena de Hollywood, e disse “Então vem, encosta-te a mim”. E dizendo isto, abraçou-me.


 E eu finalmente sorri ao entender. O meu mundo estava a mudar. Para melhor.

 E eu não me importava.


(talvez um excerto do pseudo-livro que ando a escrevinhar..)

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