A medida do querer


Há momentos altamente definidores. Momentos que podem não passar de um mero segundo.

Ela sabia-o. Encostada no seu canto, mergulhada nos seus pensamentos. Cabeça a mil. Observando o vazio… esse vazio que se alastrava na imensidão onde se encontrava. Que se estendia até si. Que a inundava. Ah, o vazio. Só isso sentia naquele momento. E não sentia ao mesmo tempo, oh esse ilustre paradoxo do ser.
                E lá estava ele. Não num canto oposto, mas parecendo estar num outro lado longínquo do mundo.

“Sinto-me só, sabias?” – disse ela, fitando-o. Perscrutando toda a sua alma sem pestanejar. – “Sinto-me só e sem ti, completamente vazia. Oca.”

                E ele lá continuava. Olhando-a, com aqueles olhos marejados de confusão.

“Não sei o que fazer. Quero que te decidas por mim. Preciso que me olhes como sou. Quero que me aceites com todas as minhas falhas. Preciso que me tenhas sem ter. Que me sintas como se um livro aberto fosse…
Preciso de ti. Não queria sentir tanto isto, mas é a verdade. Não me consigo anular mais.” – rematou ela, naquele silêncio estranho entre ambos.

“Não estou habituado a esta distância. Não sei agir contigo desta forma. Mas e se me aproximo, o que acontece? Somos dois ímanes que, por muito que se afastem, sempre se voltam a unir. E eu não sei o que é isto que nos rodeia. Não sei o que fazer.” – balbuciou ele, sem a olhar nos olhos.

“Sabes,  - começou ela – gostar de ti é desgastante… tudo à tua maneira. Sempre cegamente à espera. Anulando-me. Não dizendo nem um terço do que quero. És-me tão essencial e nem sequer o sonhas.
Sim, és. Gosto de ti como já não me lembro de gostar de alguém. Estou cansada. E, apesar de tudo, não me consigo obrigar a tirar-te da minha vida. Não o quero. Muito pelo contrário. És a primeira pessoa em muito tempo, pela qual quero lutar com todas as minhas forças. E dói, não penses que não. Dói tanto ver-te escorregar-me por entre os dedos… Estou cansada disto tudo. E por sentir algo assim por ti, seria capaz de te dar o espaço que me pedes. Mas não me podes impedir de te querer. De te querer tanto, que a tua ausência deixa em mim um vazio que não consigo preencher……”
Subitamente calou-se, desviando o seu olhar do dele. Sentia lágrimas a chegar-lhe aos olhos e havia prometido a si mesma não chorar.

Apenas silêncio. Um nada de palavras em que os olhares se cruzam e tudo se diz.
Duas lágrimas na sua face. E ela que prometera ser forte…

“Não sei mesmo o que fazer. Que queres que faça, sinceramente? Estou completamente perdido…” – soltou ele a custo. Quem sabe também ele reprimindo algumas lágrimas.

“Queres sinceridade? O politicamente correcto diria que o melhor era decidires o melhor para ti. Mas que se lixe o politicamente correcto! O que eu quero é simples.” – responde ela prontamente.

“Diz-me! Ajuda-me a perceber. O que queres tu que faça?” – suplicou ele, olhando-a bem na sua alma.

“Quero algo muito simples, - diz ela, enquanto se levanta e se dirige a ele, - e não entendo como ainda não o percebeste.”

Os olhares fixos um no outro. O aproximar de dois ímanes. Um lugar vazio e cinzento que se enche de cor com um beijo. Um momento partilhado e muito desejado por ambos. Depois, um abraço forte, que poderia durar uma eternidade e não ser suficiente. Apertado, como se do último se tratasse.

Um sussurro ao ouvido.
“O que quero é isto. Tu. Nós.” – disse ela, com os olhos cheios de lágrimas e a sua mão na dele.
Ele. Esse homem que é menino e que não quer crescer.

“Sim, - continua ela, olhando os olhos incrédulos dele. – é isso que quero, apenas. Que sejas meu amigo e companheiro. Que sejas tudo comigo, nada de metades. Como duas crianças que se julgam eternas. Fica comigo. Não me deixes escapar…”


Um olhar que diz tudo. E um beijo que não deixa nenhum dos seus corações mentir.

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