O texto que nunca publiquei

26/07/2012

"Diz-me." - olhando-o nos olhos.
"Não entendo. Onde queres chegar com tudo isto?" - impávido.
"Diz-me! Quero eu entender. Preciso de algum sentido para compreender se o sentido em que estou me leva a ti." - olhos de ternura, mascarados de água salgada.
"Mas  que queres que te diga? O sentido por vezes é subjectivo. O que faz sentido para uns, não é sentido por outros." - confuso.
"Diz-me qualquer coisa. Já estou por tudo, confesso. Fala, solta-te. Chora comigo, grita, discute. Alguma coisa, qualquer coisa. Torna real parte "disto". Sê inteiro comigo."
"..." - nada, um virar de cara pensativo.
"Vês?! é isto. Quero algo. Não pareces ter iniciativa, não sei. Os teus desaires? Esses já não bastam. Sinto chegar a altura de exigir mais.Chama-me nomes. Grita. Manda-me embora. Dá-me carinho. Sê comigo. Agora isto? Isto já não chega." - uma lágrima e os olhos vermelhos de esperança.
"Tens razão. Estas meias-coisas de algo que não se define não fazem sentido se há algo mais. Se há alguém que sente. Mas e depois? Se depois do sentido vem o fingido? Se se esmorece, onde ficamos? Não sei sequer se dizer algo faz sentido."

Há silêncios esclarecedores e palavras de ponta-e-mola que se não são manuseadas com cuidado, criam rasgos mais graves que ataques de um qualquer psicopata sadomasoquista bipolar com distúrbios de personalidade.
Mas ela prefere assim. Porque com costuras ou feridas ainda que abertas, encontra o impulso para a definitividade.

"Quero que me digas algo. Não suporto mais isto." - uma lágrima que sai e outra que ela reprime.
"Não posso, algo me prende. Sabe-lo bem.." - e a ele já as palavras lhe custam a dizer.
"Pois sei. Mas tinha esperança que por esta altura, essas algemas imaginárias já não passassem de metáforas vazias. Pelos vistos estava enganada." - já não há lágrimas, apenas mais magoada que nunca.
"Gostava de te poder prometer mais... mas não posso... O risco é demasiado grande." - suspira e olha-a - "No fundo, talvez seja só mais um cobarde na tua vida. Mas o meu receio impede-me de tudo. Porque de sentido e de sentir estou repleto."

(E ela por dentro chora. De tristeza e raiva. 
E ele por fora vislumbra-lhe um manto de ferro.)

"Para mim isso não faz sentido. Numa coisa estavas certo, é subjectivo. Para mim o "repleto de sentido e sentir" é prova bastante de que algo pode ser feito... E, pelos vistos, vai sê-lo." - levanta-se - "Talvez não seja é com o sentido que eu queria."

Caminha para a saída engolindo as lágrimas que teimam em voltar. 
Pára. "Sabes, julguei ser desta vez o momento certo. Era o sentido e altura de sermos nós." - e sussurra, não sabendo se queria que este a ouvisse - "gosto tanto de ti... mas não aguento mais. Talvez as saudades falem alto amanhã, daqui a uma semana ou um mês. Mas agora, neste preciso momento, não tenho mais forças." - (silêncio) na sua cabeça surge a possibilidade de uma reviravolta súbita, qual filme. Oh... esperança vã essa. - "Percebo agora a relutância da minha pequena máquina cardíaca quanto a isto. Estou cansada e é só isto. Mas sabes, tal como tu sou cobarde. Fraca até. Ficarei na mesma à espera da iniciativa , dos carinhos, das palavras repletas... do sentido e sentir que tanto te custa. Esperarei por elas como um doente oncológico que espera a cura. Talvez mais tarde as tenhas para mim. Ou talvez mais tarde me canse de vez e sem buscar, encontre alguém que me traga a tal cura." - volta-se e olha-o uma última vez decidida (e ali está aquele homem com olhos de menino perdido) continuando - "Vou esperar. Mas tudo tem limites..." - e a voz que falha e as lágrimas que não sossegam atrás dos olhos - "Não me deixes ir, suplico-te. O nosso sentir faz sentido, não o esqueças..."

(silêncio mais uma vez.) 
Ele que não o diz, mas sabe que se ela sair, nunca mais a irá ter. E ainda assim, apenas um "eu não te esqueço" lhe sai murmurado. 

E ela já está na porta. 
"Pensa no que te disse. Pensa em mim, acima de tudo. Porque se o esqueceres, não serei obrigada a lembrar-to. E porque se for tarde demais, já não fará sentido sentir." - e mesmo não devendo, sentindo-o perto, vira-se e beija-o. Com toda a força pois pressente ser o último. "Não nos percas." - sussurra-lhe ela ao ouvido. 
Ele sorri, daquela forma triste que parte o coração.

Uma porta que se fecha e uma distância que se cria.
Ele e ela. Um sentir com sentido, que parece não encontrar o sentido para seguir. 
Pelo menos não em frente. Pelo menos não juntos.

(E enquanto caminha para o novo capítulo, pergunta-se a si própria... Que sentido faz tudo isto?)


16/12/2013
... Curioso como um pedaço de "ontem" encaixa tão bem no puzzle de hoje. Como uma mera tarde de arrumações nos mostra o ciclo de que a nossa vida é feita.

Ora bolas. A vida tem um sentido curioso.

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